Conheça Mariana Carpanezzi

Conheça Mariana Carpanezzi, escritora e ilustradora que reencontrou a vida após 100 dias pela Europa. Ela curou a depressão pedalando pelo mundo.

A história da escritora e ilustradora Mariana Carpanezzi, 36 anos, é transformadora. Nos últimos cinco anos, viveu na Suíça, na França, na Espanha, na Índia, em Portugal e na Alemanha – e foi em todos estes lugares que escreveu e ilustrou “O Mundo sem Anéis: 100 Dias em Bicicleta“, seu primeiro livro, lançado pelo selo brasiliense Longe.

A paraense Mariana, nascida em Belém, passou grande parte da vida em Curitiba e vive em Brasília desde dezembro de 2015. Trabalha com direitos humanos no Governo Federal, desenha, escreve, pratica yoga, medita e pedala, claro. Antes disso, a inquieta e talentosa Mariana estudou direito, pesquisou genocídio e estudou fotografia, mas gosta mesmo é de passar o tempo refletindo sobre suas criações artísticas.

Bem, mas nem tudo são rosas.

Como na vida de qualquer outro ser humano, Mariana passou por altos e baixos antes de realmente tomar a decisão de cair na estrada de bicicleta e literalmente transformar sua forma de viver.
A carreira de Mariana era promissora, ela havia conseguido o trabalho que queria (secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República), depois tirou uma licença para estudar um tempo na Europa, passou a morar em Genebra, na Suíça, estava tudo indo bem, tudo correto, chegando a ser entediante. Com a frieza do local, a depressão foi se instalando até tornar tudo muito chato e desestimulante. Depois de alguma resistência, ela tomou coragem de aceitar o convite de uma amiga para encarar uma cicloviagem de mil quilômetros, inicialmente, sem qualquer experiência no assunto.

“Nem sei qual aprendizado a viagem me trouxe. Foi maior, tipo uma reciclagem: entrei uma e saí outra.”

“Hoje, vivo uma vida mais simples do que vivia antes – dedico a maior parte do tempo a escrever, fazer meus desenhos e meditar. Gosto muito de ficar sozinha. Não sei muito do futuro. As coisas mudam do lado de fora. Espero que do lado de dentro seja meu envelhecer de todo dia seja o da sabedoria,” diz Mariana.

Camping Selvagem

Cura

Pedalar: “Foi um dissolver, um cubo de gelo na água. Um deixar pra trás. A vontade de controlar a viagem foi morrendo enquanto a estrada ia me mostrando que eu não tinha controle de nada – um dia a bicicleta estragava, no outro eu descobria uma cidade linda e mudava a rota, uma semana depois eu estava em outro lugar que um desconhecido tinha indicado. A vontade de controlar a vida foi no morrendo no caminho, também. Essa mão que agarra as coisas com força foi afrouxando, os rancores foram sendo curados, as tristezas foram ficando pela estrada. Foi assim”, descreve Mariana seu processo de cura da depressão, que conseguiu reverter uma doença que, segundo a Organização Mundial de Saúde, atinge quase 5% da população do planeta.

“Essa mão que agarra as coisas com força foi afrouxando, os rancores foram sendo curados, as tristezas foram ficando pela estrada.”

“Disse sim à mensagem que a Carol mandou de Genebra, explicando sobre os mais de mil quilômetros de ciclovias que se estendem pela costa atlântica da França, entre a Grã-Bretanha e a fronteira com a Espanha. Sim aos alforjes, às roupas de ciclista, aos mapas, às passagens de trem, ao equipamento de camping, a 15 dias viajando de bicicleta pela primeira vez. Sim à viagem, que não é sair da ilha, mas perder-se em volta dela. Às vezes, quando não existe solução, a única coisa a fazer é contornar,” conta Mariana num dos trechos do seu livro.

“Às vezes, quando não existe solução, a única coisa a fazer é contornar.”

Medo

Munida apenas de uma bike de passeio e a vontade da transformação, Mariana juntou-se aos planos da amiga Carol para os 15 dias na Europa, que logo viraram 100 dias pedalando sozinha, que gerou o livro, milhares de fotos e ilustrações. Uma nova vida, afinal, viajar é preciso. Além da barreira e limites pessoais, buscar os próprios sonhos, às vezes, significa quebrar paradigmas criados pela sociedade.

“Entendi que o medo é muito presente na cabeça das pessoas, e que ele nos afasta do vôo em direção ao desconhecido.”

“Você não ficava com medo?” é a primeira pergunta de todo mundo. Mas eu nunca tive. Sou meio besta; não passou pela minha cabeça. Acontece que, de tanto perguntarem, entendi que o medo é muito presente na cabeça das pessoas, e que ele nos afasta do vôo em direção ao desconhecido – medo de não conseguir lidar com problemas mecânicos, de se machucar, da segurança, de acidente. E ele é bem mais forte quando a gente fala de mulheres.

“Menina pedalando sozinha soa esquisito, e a estrada fica assim: sem mulheres viajando de bicicleta. Bobagem.”

O mundo do cicloturismo ainda é muito masculino. Achamos que a mulher é frágil demais pra se virar. Claro que ser mulher na estrada é muito diferente de ser homem, e o tema da segurança física muda. Mas tem algo além disso – a fixação nessa idéia de que a gente não é forte e auto-suficiente o bastante pra lidar com a vida “hard” do pedal. A ideia vira verdade, todo mundo acredita e repete, menina pedalando sozinha soa esquisito, e a estrada fica assim: sem mulheres viajando de bicicleta. Bobagem. Vou te dizer: cansei de deixar homem forte pra trás,” relata Mariana.

Ser mulher-ciclista

Para Mariana e o senso comum: “Pedalar faz bem pra todo mundo. Mulheres pedalando fazem bem pra mim: elas são uma inspiração e um espelho,” define.

“Mulheres pedalando fazem bem pra mim: elas são uma inspiração e um espelho.”

“Ser mulher é não encontrar nenhuma outra mulher viajando sozinha. Porque por mais que existam páginas na internet contando histórias de mulheres ciclistas, elas são poucas, e na estrada o que a gente vê são só os homens de duas rodas.

“Os meninos brincam de futebol e as meninas brincam de boneca, mas todo mundo anda de bicicleta quando é criança.”

É descobrir que, ainda que você não se importa muito, ser mulher e ciclista é uma identidade de muitos capítulos que os outros reconhecem à sua maneira. (…) Nunca entendi muito sobre isso e acho essas abordagens muito esquisitas. Me falta a identidade feminina, talvez. Os meninos brincam de futebol e as meninas brincam de boneca, mas todo mundo anda de bicicleta quando é criança. Do lado de cá, sou das mais genéricas. Um ser humano, logo bípede, com duas pernas para pedalar por onde eu quiser, sozinha ou não”.

Mariana nos Pirineus

Assédio

“Pedalei principalmente pela Espanha, e o tema da violência não é tão forte por lá. Mesmo assim, todo mundo se impressionava quando eu chegava sozinha numa cidade qualquer, como se eu fosse a pessoa mais corajosa do mundo. Tem muito estigma associado à mulher que viaja assim…

“Todo mundo se impressionava quando eu chegava sozinha, como se eu fosse a pessoa mais corajosa do mundo.”

É comum que as pessoas te vejam um pouco como alienígena ou uma Barbie em roupa de esporte. Cansei de ouvir convites esquisitos, por exemplo, como se o fato de eu viajar sozinha de bicicleta significasse que eu era livre, e que ser uma mulher livre era sinônimo de transar com todo mundo que passasse pela frente. Tinha coisa que não dava pra acreditar,” pontua Mariana

Intimidade com a solidão
Intimidade com a solidão

Desafios

“Nunca tive medo e nem vontade de desistir. Antes da viagem, meu sentimento era mais a insegurança, porque viajar de bicicleta era entrar num mundo sem referências – eu não tinha a mínima ideia de como me virar, ou se ia conseguir aguentar o peso dos alforjes. Isso passou rápido, porque a estrada não é bicho de sete cabeças. É só diferente. Se você se abre, aprender com ela é fácil; se você resiste, vira um horror. Depois de um tempo, os sentimentos mudam. Como viajei muito sozinha, sem computador e nem smartphone, existia a solidão. Vivi com ela, parei de evita-la, ficamos íntimas,” lembra Mariana.

“A estrada não é bicho de sete cabeças. É só diferente.”

Bike e Yoga
Bike e Yoga

Menos é mais

Pode soar clichê, mas não existe formula mágica para ser feliz. Mas o passar dos anos vamos concordando que, menos – bens materiais – é mais – vida.

“O nascer do sol e a chuva não custam nada – eles só pedem nosso olhar.”

“Na viagem de bicicleta a gente tem que carregar o que precisa. Quanto menos coisa, mais leve, mais fácil de pedalar na subida. Quanto mais coisa, mais difícil. Não dá pra descrever como é a sensação de pedalar no meio de uma tempestade. Nem como é maravilhoso acordar e ver o sol nascendo na estrada. O nascer do sol e a chuva não custam nada – eles só pedem nosso olhar. Foi inconsciente, acho…
Escolhi viver a viagem da maneira mais natural possível, sem tentar replicar minha vida confortável de cidade para a estrada. Então viajei com o menos possível, o mais leve que dava, e dediquei meus dias à simplicidade. Não levei fogareiro, então passava a maior parte dos dias sem comida quente; só levei um sabonete, e era ele que lavava minha cabeça, meu corpo e as minhas roupas; além dos trajes de ciclista, passei a maior parte da viagem com uma só muda de roupa extra: um vestido florido e um chinelo de dedo. Estou vestida com eles em todas as minhas fotos!” sem vergonha do que os fashionistas podem pensar.

Valência, na Espanha
Valência, na Espanha

Viajar – de bike – é preciso

Antes de encarar sua primeira cicloviagem, Mariana já tinha certa intimidade com a bike, usada como meio de transporte. “Já tava morando fora do Brasil há dois anos quando fiz a viagem. A bicicleta era meu meio de transporte na cidade. Às vezes eu aproveitava pra fazer um pedal no começo da noite ou no final de semana, mas nunca fui muito profissional: sou uma ciclista resistente, só que lerda.

“É só subir na bicicleta e todo o universo descobre que eu estou feliz. Pedalar e meditar são a mesma coisa.”

Ainda é assim: continuo lerda e sigo usando a bike como meio de transporte aqui em Brasília. Não tenho carro, então alterno ônibus e pedal pra fazer as coisas do dia-a-dia. É só subir na bicicleta e todo o universo descobre que eu estou feliz. Na minha volta ao Brasil, usar a bicicleta me trouxe outra relação com a cidade. Pedalar e meditar são a mesma coisa.

Foram cem dias do mais puro pão com queijo.

Viajei com uma bicicleta que não é própria para cicloturismo: uma bike híbrida Trek 7.2, com quadro em alumínio. Pedalei super leve, com um só par de alforjes Vaude impermeáveis. Levei uma máquina fotográfica e um caderno para anotações, mas deixei em casa o celular e outras formas de conexão com a internet. Comprei uma mochila e um par de tênis no meio da viagem, quando decidi caminhar pelos Pireneus. Para dormir, preferi uma barraca simples, barata, e um saco de dormir. Não levei fogareiro e nem panela: foram cem dias do mais puro pão com queijo!” descreve a autora.

100% Amor

Para refletir, inspirar e sorrir

Após 100 dias na bicicleta, Mariana aprendeua se conhecer “a maior descoberta foi a do meu corpo. Entendi que pra cuidar dele era preciso ouvir. Essa escuta íntima foi essencial. Aprendi a me conhecer e não me machuquei durante os mais de três meses de viagem”, afirma a ciclista que agora almeja um dia pedalar pelo litoral catarinense…

“A maior descoberta foi a do meu corpo. Entendi que pra cuidar dele era preciso ouvir. Essa escuta íntima foi essencial.”

Enquanto isso, ficando com mais um trecho da obra “O mundo sem anéis: 100 dias em bicicleta”:

“Uma estrela cadente no céu. Menos que um segundo, só o tempo de um pedido mais rápido que a sinapse cerabral. A estrela que não tem antes ou depois, que só existe quando cai.

Dizendo assim: o que nasce, morre. A estrela que não é. Só passar. Como tudo.

Vão-se os anéis e ficam os dedos. Daqui nada se leva. Algo um dia riscou nosso céu, começou num momento sem começos, atravessou a tela da vida e partiu sem deixar vestígios

(…) Uma estrela cadente no céu.

A menina escosta no meu ouvido:

– Liberdade é sempre ser e sempre se tornar, ir sempre e sempre deixar.
Estou sozinha.

Ela sou eu”.

Fonte: RedBull.com e WWW.SURINAMARIANA.COM

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