Estrada Real de bicicleta

Estrada Real de bicicleta – Confira a última aventura do casal de ciclistas Andrea e Christoph Sauser que realizaram uma cicloviagem entre Ouro Preto (MG) à Paraty (RJ)

Christoph Sauser curtindo as estradas vicinais brasileiras
Christoph Sauser curtindo as estradas vicinais brasileiras

O Brasil é um país com dimensões continentais com opções quase infinitas de lugares para cicloviagens. No entanto, nem todo mundo ainda teve a oportunidade de viajar com sua bicicleta, seja sozinho, em casal ou em grupo. E para instigar seu próximo pedal, registramos a cicloviagem realizada pelo casal de ciclistas Andrea e Christoph Sauser, ambos atletas experientes que vivem na Suíça e aproveitaram as férias no Brasil para conciliar as festividades em família com uma pedalada de aproximadamente 600km pela histórica Estrada Real, entre as cidades de Ouro Preto (MG) à Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro.

Ponto de partida da cicloviagem: Igreja da matriz em Ouro Preto (MG)
Ponto de partida da cicloviagem: Igreja da matriz em Ouro Preto (MG)

“Já fizemos algumas viagens de bike, algumas pela Europa também, juntos, sozinhos ou com outros amigos, de MTB, de speed e ultimamente de gravel que a bike ideal pra isso. Sou de Belo Horizonte e cresci em Itabirito, que fica na Estrada Real. Já tinha levado o Christoph em Ouro Preto e contado para ele, que adora lugares históricos, sobre a Estrada Real. Quando decidimos passar o Natal de 2018 no Brasil, pensamos que seria fantástico aproveitar a oportunidade para fazer essa cicloviagem. Minha família topou nos encontrar em Paraty, e assim fechamos o projeto!” – conta Andrea Marcellini Sauser, que tem um filho pequeno e contou com o apoio da família para realizer a cicloviagem.

“O Christoph nunca tinha pedalado em Minas e também não conhecia o litoral do Rio. Essa seria a oportunidade perfeita de apresentar a ele as montanhas e o chão de minério onde eu aprendi a pedalar. A culinária mineira e as cidades históricas também foram outro fator que nos fez escolher esse trajeto. Em 2005, eu tinha feito a Estrada Real com um grupo, da Serra do Cipó a Diamantina e foi uma viagem inesquecível. Na época fomos com pousadas reservadas e apoio, mas desta vez, com a experiência que temos com pedal e viagens desse tipo, fomos sem apoio e encontrando pousadas à medida que chagávamos a cada local” – acrescenta Andrea, que é bastante conhecida na cena do MTB brasileiro, sendo a “voz em português” nas transmissões da Copa do Mundo UCI de MTB 2018 pela Red Bull TV.

Ciclorio - Acessorios

Cicloviagens ensinam que mais importante que o destino, é o caminho.
Cicloviagens ensinam que mais importante que o destino, é o caminho.

“Comecei a planejar a rota dois meses antes. Pesquisei um pouco sobre as cidades do caminho anotando as que nos interessavam mais. Procurei traçados de GPS de ciclistas que já haviam feito o percurso. Vi que eles variavam bastante, entre 600 e 800km, de uma semana a 10 dias. Nós tínhamos apenas 6 dias e encontramos um traçado de 620km, que foi o que usamos como base. Dividi o percurso da seguinte forma”:

Dia 1: Ouro Preto a Entre Rios de Minas (MG) – 96km
Dia 2: Entre Rios de Minas a Tiradentes (MG) – 90km
Dia 3: Tiradentes a Carrancas (MG) – 112km
Dia 4: Carrancas a Sao Lourenço (MG) – 120km
Dia 5: Sao Lourenço a Guaratinguetá (SP) – 100km
Dia 6: Guaratinguetá (SP) a Paraty (RJ) – 103km

Escolha dos equipamentos

Ciclista suíço Christoph Sauser debuta nas estradas mineiras
Ciclista suíço Christoph Sauser debuta nas estradas mineiras

“Ví por videos e blogs que não passaríamos por trilhas; apenas estradas de terra (80%) e asfalto. Assim decidimos que as bikes Specialized Diverge (gravel) eram disparadas a melhor opção. E tivemos a confirmação disso quando pegamos MUITO barro nos dois primeiros dias! Essas são bikes com geometria parecida com a speed, porem com pneu mais largo e com travas, freios a disco, guidão mais alto e pedais de mtb. Elas desenvolvem muito mais que a mtb nas estradas de terra pois são desenhadas exatamente para isso, e rendem praticamente como uma speed no asfalto. Mas o que mais me impressionou foi ver como elas cortam o barro sem perder muita velocidade e não levam tanta lama nos pneus e quadro quanto uma mtb. A manutenção também é mais simples” – destacou Andrea sobre a escolha dos equipamentos.

Indy Bike

Gravel bike é uma boa escolha para viagens por estradas de terra
Gravel bike é uma boa escolha para viagens por estradas de terra

“Fomos sem apoio, e utilizamos um jogo de bolsas no guidao e atrás do canote da própria Specialized chamado Bura Bura. Quanto mais viagens desse tipo você faz, melhor você aprende o que realmente é necessário levar. Claro que tentamos levar o mínimo, porque o peso de cada bike vai impactar no rendimento da viagem. Quanto mais peso, mais você sofre. Eu, como mulher, aprendi a levar uma bolsinha bem resumida de cosméticos e a escolher um vestido bem leve pra não ter que ir jantar de pijama nem bermuda de lycra quando chegávamos nas cidades :-)” – simplifica.

Os números da cicloviagem

De Ouro Preto (MG) à Paraty (RJ) de bike
De Ouro Preto (MG) à Paraty (RJ) de bike

“Foram 620km, 10.000m de subidas, 6 dias, uma média de 5 horas de pedal por dia que se traduziam em cerca de 8 horas diárias na estrada. Fomos sem pressão, parando para tirar fotos, comer, tomar um cafezinho com pão de queijo nas cidadezinhas pelo caminho. Nenhum pneu furado, e olha que “deitamos o cabelo” nas descidas! Mas no terceiro dia tivemos que parar em São João Del Rey para trocar minhas pastilhas de freio. Foi talvez o maior desafio da viagem, porque não encontramos pastilhas para freio a disco de speed, e tivemos que limar pastilhas de mtb e adapta-las para caber no tambor da speed. Tenho um video do Christoph lixando as pastilhas numa loja de bike! Aliás, fomos super bem recebidos por onde passamos, e por causa dos posts que fizemos no Instagram, tivemos algumas surpresas ao longo do caminho, de ciclistas aguardando a nossa passagem e pedalando parte do caminho conosco!” – afirma.

Os desafios

Lama, barro, tempestade? Tudo faz rir no final...
Lama, barro, tempestade? Tudo faz rir no final…

“No primeiro dia, atravessamos duas tempestades. A segunda, nos quilômetros finais, criou enxurradas de lama alaranjada onde era difícil ate de andar – e totalmente impossível de pedalar. Ali tivemos medo de que os planos de chegar pedalando a Paraty fossem literalmente por agua abaixo. Chegamos a Entre Rios completamente ensopados e para nosso desgosto, ao chegar no hotel, descobrimos que mesmo com as bolsas impermeáveis, a combinação de humidade e calor tinha umedecido as nossas roupas secas. Como chegamos tarde ao hotel, as roupas não secaram, e saímos no dia seguinte já molhados, para outro dia de chuva. Pedalamos o segundo dia inteiro sob uma garoa que cedeu apenas nos últimos quilômetros e chegamos a Tiradentes debaixo de um arco-íris. São acontecimentos como esses que fazem tudo valer a pena – e renovam a energia para continuar pedalando no dia seguinte. Do terceiro dia em diante, tivemos sol, e o calor foi só aumentando. Esse passou a ser o desafio! Mas tanto a chuva quanto o calor não nos atrapalharam. Apenas pontuaram os dias e nos fizeram rir das situações” – relembra.

Sinalização e trânsito de veículos

“A sinalização da Estrada Real é ótima até Sao Lourenço. Dali pra frente, por algum motivo, ela vai ficando escassa, em alguns pontos quase inexistente. Usamos os marcos da Estrada Real apenas como confirmação do caminho certo, pois estávamos seguindo o GPS. Os veículos nos surpreenderam positivamente. Em nenhuma situação tivemos um carro, ônibus ou caminho passando a menos de 1.5m que é a distancia regulamentar. Palmas para os motoristas brasileiros, mesmo em vias de alta velocidade!” – aponta.

Passeio em família

“Desde que o nosso bebê nasceu, os momentos que Christoph e eu temos juntos, sozinhos, são raros. Adoramos fazer programas que incluam nosso filho, seja algo cultural, de bike com ele na charrete ou caminhando nas montanhas com ele na mochila. Mas é claro que cada vez que temos a oportunidade de nos re-encontrar pedalando, usamos isso para fortalecer ainda mais a “cola” que nos une. É por isso que situações de chuva, lama, calor, cansaço, nos fazem rir ao invés de nos estressar. Somos apaixonados por aventuras – se não fossemos, iriamos para um resort na praia e ficaríamos fazendo nada o dia todo! Desta vez o bebê ficou com meus pais, que moram em Belo Horizonte e agarram a oportunidade de cuidar do neto que eles vêem tão pouco!” – explica.

Os ensinamentos de uma cicloviagem

“Cicloviagens ensinam que mais importante que o destino, é o caminho. É ótimo chegar num lugar legal, mas se você não apreciar o caminho para chegar lá, a viagem não tem sentido. É preciso bom planejamento e preparação e, sobretudo, atitude positiva, porque você vai ter surpresas, vai assar o bumbum, vai ter problemas com o equipamento… Eu aprendi também que preciso me alimentar constantemente para manter o ritmo. E me aproveito disso para comer delicias locais. Em mais de 600km, não comi um gel, uma barra de cereais, apenas comida de verdade!” – descreve Andrea que aproveitou para relembrar das comidas e delícias locais. “A nossa próxima viagem deve acontecer em maio de 2019, no oeste da França!” – completa Andrea que adora uma boa aventura sobre sua bike.

CRÉDITOS:
© ARQUIVO FAMÍLIA SAUSER -Fotos
RedBull – texto

Estrada Real de bicicleta
5 (100%) 5 voto[s]

Deixe seu comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Estrada Real de bicicleta

Estrada Real de bicicleta

Estrada Real de bicicleta

Avalie essa matéria

Deixe seu comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.